Ele, Passos, fala para a retális

A direita é assim, básica. Passos Coelho é assim, simples e sem envergadura política. Foi visto às compras pelo “Correio da Manhã” na Amadora, para passar a mensagem que se impõe, populista e demagógica: “vejam como o nosso primeiro é um homem simples, com hábitos comuns, como vir a um supermercado da Amadora”. Melhor. Como não há inaugurações a fazer, os assessores do primeiro-ministro convidam o jornalista a ir ao supermercado. Este vai. Sem dor, até porque este governo está a aplicar as medidas certas para tirar o País de um mal crónico chamado défice. Os números comprovam-no e o défice avança, mais célere que a oratória de Gaspar quando em euforia.

O alvo da acção de charme é o taxista. Este achará a situação simpática e, como que especializado na análise política, leitor de Aristóteles nas horas mortas, comentará prazeroso a notícia: “temos homem sério, honesto. Não é como aqueles bandalhos que andaram a mamar à grande durante seis anos”.  Leitor, não se indigne já, até porque aqui quem escreve não é socialista. Mas social-democrata também não é. Ou melhor, seria, se este excêntrico partido fizesse jus ao nome. Mas não o faz. Impõe corte cego e sem critério e, depois, arremete para o discurso do esforço, do sacrifício, que mais tarde será recompensado. Para uns, porém, a recompensa é que foi mais rápida: Catroga, Cardona, Graça Moura etc.

O taxista, como homem de labor, bate palmas. Na sua mentalidade proto-salazarista, reconhece com entusiasmo a ida de Passos ao Continente, e dedica-lhe mérito político. Porque “os cabrões dos funcionários públicos, que não fazem boi, têm trabalho seguro e regalias. E isto um dia tinha de acabar”. O taxista é assim, como Passos Coelho, pensa simples, embora com vocabulário mais vernacular.

O último episódio deu-se ontem. Passos Coelho, mais descabido do que nunca, disse que os portugueses terão de ser “menos piegas para o País sair da crise”. Ainda solidário com os membros da troika, Passos lembrou-se disto: “quem emprestava dinheiro trabalhava enquanto o país aproveitava os feriados e as pontes”. Brilhante e subserviente, o que para Passos Coelho são sinónimos. Brilhante que um primeiro-ministro humilhe com palavras o povo que o elegeu. E brilhante que se curve perante uns burocratas remotos e de trincheira a quem Passos estende a passadeira vermelha da nossa soberania. Passos Coelho bem pode estar grato por não ter o povo  na rua a partir montras e a incendiar carros. Pode, mas talvez não por muito mais tempo.

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