A fome absoluta

Estou esganado de fome, mas não é da crise. A crise não pode ser uma variável absoluta. Não explica tudo, e invocá-la em abundância rouba-nos a criatividade. Neste caso, trata-se mesmo liberdade de escolha. Se eu invocasse agora a crise para explicar a minha fome, não estaria a ser sincero, e a afirmação seria uma farsa epistemológica. Não havendo uma variável absoluta para o comportamento humano, por mais categórica que seja, mesmo tratando-se da crise, cabe-me olhar para o fenómeno sob vários ângulos.

Vem isto a propósito de outra liberdade, a de expressão. Sendo elevada, esta é uma categoria que tem de ser bem tratada, acarinhada e protegida. O pior é quando se invoca um valor tão crucial como este para obter dividendos políticos ou para alimentar agendas próprias. Uns, fazendo-se de vítimas. Outros, políticos, apontando logo armas ao inimigo, aquele que antes os acusou de fazer o mesmo. A liberdade de expressão, nestes casos, torna-se variável absoluta. E há quem sabendo disso, se aproveite.

Não gosto, por exemplo, de ver antigos directores de jornais a afirmar, em público e na presença de jornalistas, que um outro ex-director de um meio de informação foi alegadamente comprado pelo ex-primeiro-ministro, partindo a acusação apenas de testemunhos de terceiros. Dito isto, confesso que me apraz mais uma liberdade difusa e pensada, ou seja, que coloque as coisas em pespectiva. Foi triste ver no passado uma senhora relatada como vítima absoluta de censura. Meses mais tarde andou a trabalhar na sombra para tramar o ex-patrão, impedindo-o de ir para o Governo. E os media, que vendem o culto da liberdade absoluta de expressão, são os próprios a  construir uma realidade maniqueísta. Os bons e os maus. O herói e o censor. O que também faz vítimas, mesmo podendo ser inocentes dos desvarios públicos de alguns.

Falando do caso mais presente, não sei se Rosa Mendes foi censurado. Por uma razão simples: invocar em abundância o mesmo argumento, retira-lhe credibilidade. Talvez, para mim, que no passado ouvi Manuela Moura Guedes  a falar da intervenção do Rei de Espanha num alegado processo de saneamento, a liberdade de expressão se tenha tornado um valor bastante relativo. E ainda bem, pois tenho a liberdade de desconfiar. E ainda mal, pois começamos a tornar coisa chã esse valor tão nobre da nossa democracia.

Regressando a valores absolutos, os pobres, sim – não têm liberdade de escolha para escolher um momento em que possam passar fome. Vivem, com numa versão má da República de Platão (que, já de si, é má), em privação perene e absoluta, sem tempo para esmiuçar o valor do verbo e da palavra. Esta sim, talvez seja de momento a causa absoluta. E talvez seja também o tempo de remover quem foram e estão a ser os causadores desta mesma causa absoluta: ter pelo menos algum pão para se viver com dignidade, nem que esta seja relativa.

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